Por Gabriel Costa
Sempre que posso vou a um filme ou peça, tento me preservar de qualquer informação prévia. Gosto de chegar às obras o mais leigo possível, sem sinopse, trailer ou spoiler. Quero ser surpreendido, arrebatado.
Na última terça-feira, recebi a notícia de que assistiria O Mercador de Veneza na noite seguinte. E mantive o procedimento. Ao chegar à Caixa Cultural CURITIBA, eu só sabia duas coisas: era uma adaptação de Shakespeare e tinha Dan Stulbach como protagonista, ator que conhecia das novelas da Globo e dos programas esportivos da ESPN.
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Na arte, o que mais me atrai é o poder de deslocamento de uma obra, a possibilidade de fazer quem a consome sentir que, mesmo por alguns minutos, faz parte de algo maior.

E O Mercador de Veneza, nessa versão em especial, tem esse poder. Talvez eu estivesse mais sensível naquele dia, por conta de situações pessoais. Mas o certo é que: essa foi a melhor peça que vi em muito tempo. Um verdadeiro delírio teatral e cultural, uma combinação rara de sensibilidade e humor que nocauteia qualquer coração.
No papel de Shylock, Dan Stulbach brilha. Em cena, todos os olhos se voltam a ele. Sua interpretação é precisa, com sotaque e gestos cuidadosamente construídos para dar corpo ao personagem, um agiota judeu que convive diariamente com o antissemitismo e os preconceitos da sociedade em que vive.
A cenografia é minimalista: estantes de livros e um painel central com televisores suspensos no teto. E a presença das TVs não é à toa. Em momentos-chave do espetáculo, um cinegrafista filma os atores, com transmissão em tempo real. Além de atuarem para a plateia, também atuam para a câmera, algo que cria um efeito parecido com grandes sitcoms e séries amadas pelo público, como The Office.
Enquanto plateia, nos sentimos quase intrusos naquela história. A peça aposta — talvez sem querer — no voyeurismo interior de cada espectador. E os atores parecem reconhecer isso ao exagerarem propositalmente nas caretas feitas para a câmera.
A encenação alterna entre momentos verdadeiramente hilários, como esse, e monólogos profundamente sensíveis, carregados de algumas das mais icônicas frases de Shakespeare. “Se nos picam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos?”
Como ainda não conhecia o enredo original, fui surpreendido pelos temas abordados. É impressionante como um texto de mais de 400 anos trata com naturalidade assuntos como a homossexualidade e as tensões raciais. Talvez seja verdade que Shakespeare realmente já contou todas as histórias possíveis — e talvez da melhor forma.

As reflexões morais presentes no espetáculo são profundas e tocantes. “Nenhum homem pode não ser o que é.” Em um dos momentos da peça, Dan Stulbach proclama essa frase e eu a levei comigo quando saí do teatro e sigo pensando sobre ela.
Acima de tudo, O Mercador de Veneza é uma história sobre o destino inevitável de ser. É impossível fugir de si mesmo — especialmente nos momentos mais extremos. E o homem que entende isso está fadado a experimentar, nem que por um breve instante, um pouco de paz. Um pouco de felicidade.
Ainda que soe como algum tipo de elogio da ignorância, valeu a pena chegar ao espetáculo sem saber muita coisa. Sobrou espaço para aprender. A peça segue em cartaz até o dia 17 de agosto.
