Basta ler o prospecto do espetáculo “(Um) ensaio sobre a cegueira” e a expectativa vai para o teto: um dos grandes livros já escritos em língua portuguesa, adaptado e dirigido por um dos mais criativos dramaturgos do país nas últimas décadas, com a assinatura inimitável do Grupo Galpão.
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Soma-se a essa confluência de talentos a luxuosa contribuição de Federico Puppi, compositor que vem de uma série recente de preciosos trabalhos no teatro. Mas o sarrafo alto é só a metade do caminho que o espetáculo atingiu na noite em que estreou sua temporada no Rio de Janeiro, no comovente Teatro Carlos Gomes, depois de passar por Belo Horizonte e Porto Alegre.
Sou da geração que leu o livro de José Saramago assim que foi publicado, um tempo em que a distopia da epidemia de cegueira, o mal branco, parecia um improvável exercício metafórico.
Ante as desgraças, catástrofes e tragédias sociais, políticas, sanitárias e climáticas dos últimos anos, a distopia de Saramago já não choca como antes e, por isso mesmo, Portella e o Galpão tratam de atualizá-la ao estado de coisas atual.
O texto conversa perfeitamente com um tempo de desumanização absoluta, em que as maiores dores não doem além de suas fronteiras, o utilitarismo capitalista substitui pessoas por máquinas e as primeiras aplaudem felizes; autoritarismos se tornam a regra a ser perseguida pelos governos com apoio dos mercados e do crime organizado.
No palco, um balé da entropia dos elementos externos e internos que nos tornam humanos e nos desumanizam: sangue, afeto, fleuma, medo, humor, covardia, dor, bílis, violência, melancolia, desespero, morte e renascimento. Cabe o nosso mundo de hoje nesse galpão.
E fica escancarada a incapacidade histórica, crônica e real que temos de, podendo enxergar o outro, vê-lo e, vendo-o, reparar no que ele faz e é — como sugeriu Saramago na epígrafe do livro.
Atualizando a ideia e o propósito do texto clássico, “(Um) ensaio sobre a cegueira” é um espetáculo geracional sobre o qual todos falaremos durante as próximas décadas para lembrar do que aconteceu antes e depois.
É arte no que ela tem de melhor. Incomoda e é desagradável – inclusive fisicamente, no efeito de luz que “cega” a plateia a cada nova descoberta de cegueira.
No outro lado, há o deleite da linguagem escorreitamente cuidada e das interpretações “padrão Galpão”, em que todos cantam, tocam, interpretam, sapateiam, pintam e bordam em cena sobre a música original da trilha criada por Puppi e executada ao vivo. Com poucas notas, cria-se uma paisagem sonora de muros e pontes por onde a dramaturgia avança e se retrai.
A temporada segue até 14 de setembro, de quarta a domingo. Para aqueles que quiserem sair da plateia, há 15 ingressos por sessão para uma experiência imersiva, em que os participantes entram de olhos vendados no palco.
Acho que nunca foi tão bem resolvida e acertada uma experiência de plateia no palco como nesta parceria entre Portella e o Galpão. No final, o texto pede uma catarse de todo o público, como a exigir que o teatro interfira no cotidiano da cidade e, de alguma forma, chame a realidade para dançar, encerrando um arco completo das possibilidades da arte. Arrepiante de tão bom.