Respeito é bom e o Samba do Sindicatis gosta.
E como também gosta de festa, a roda de samba vai celebrar 15 anos de atividades ininterruptas no próximo 15 de novembro, em uma edição especial no Bar Brasileirinho, com participação de Tuco Pellegrino.
Sem se dobrar a modismos, o agrupamento trabalha para preservar a memória viva dos sambistas pioneiros do Estácio, Mangueira, Portela, Salgueiro e Império Serrano, entre outras escolas.
A apresentação é gratuita e começa às 16 h, no mesmo espaço onde tudo começou.

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O aniversário marca a data simbólica da primeira roda, realizada em 6 de novembro de 2010, quando Paulinho da Viola se apresentou com a Orquestra à Base de Cordas do Conservatório de MPB diante de milhares de pessoas no Paço Municipal. Animados pela ocasião, um grupo de amigos improvisou uma roda de samba no centro histórico.
Da Rua Riachuelo, seguiram para o Bar Brasileirinho, que estava fechado. Determinados a tocar, subiram ao Tragos Largos, onde passaram horas embalados por sambas de Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho e, claro, Paulinho da Viola. Na semana seguinte, o encontro se repetiu no Brasileirinho — e nunca mais parou.
“Nesses quinze anos, a gente teve a oportunidade de contar com grandes convidados que engrandeceram a nossa história e trouxeram o que se tornou, no decorrer dos anos, o pilar principal da roda: a manutenção da obra dos grandes mestres”, diz Bruno Santos Lima, fundador, compositor e diretor musical do grupo.
Entre uma batucada e outra, o Sindicatis transformou-se na referência local de um movimento de preservação do samba tradicional, reconhecido fora do Paraná e citado em livros, teses de mestrado e doutorado.

Mestres como Monarco, Nelson Sargento, Tantinho da Mangueira, Dona Leda do Império Serrano e Francineth Germano já foram convidados para rodas especiais.
“O samba que não era tão cantado, o samba esquecido… a gente procurava privilegiar esse repertório de uma linha mais antiga, melódica — o que chamamos de uma área pré-cacique —, que acabou se convencionando como o samba nacional depois dos anos 1980. Ao longo dos anos, tivemos a sorte de encontrar vários desses mestres ainda em vida”, afirma Bruno.
Nesses quinze anos, sem fazer alarde, o coletivo também destinou parte da arrecadação ao apoio de sambistas da velha guarda em tratamento de saúde e ao incentivo a outros coletivos do país.

A pesquisa e a batucada sempre foram o foco da turma, que se autofinancia por meio de festas e eventos. Com os recursos arrecadados, o grupo bancou viagens, projetos e produções, como o disco em homenagem a Maé da Cuíca — pioneiro do samba curitibano — e o relançamento, em vinil, do álbum inédito da Portela de 1959, viabilizado pelo Instituto Cultural Glória ao Samba em 2022.
“A principal importância de manter esse trabalho é o registro histórico, da época em que o samba não era mercadoria. Ele nascia da força motriz do povo trabalhador, que produzia uma cultura de altíssimo nível e um lirismo impressionante. Registrar isso é fundamental como reflexo de uma geração e da realidade do povo brasileiro.”
O nome Sindicatis surgiu da corruptela popular — a cacoépia — célebre do ator e sambista Mussum em esquetes do programa Os Trapalhões, uma homenagem bem-humorada à irreverência do humorista e sambista.

Bruno destaca o papel político da pesquisa e do resgate do patrimônio cultural das primeiras gerações do samba brasileiro:
“Historicamente, a música brasileira sempre teve essa necessidade de um toque de Midas: se o mercado branco não interferisse no processo de criação, era considerada de segunda linha. O samba nasceu atravessado por isso. Era visto como música de malandro, de vagabundo. E, para se livrar desse estigma, precisou ser apropriado, elevado a símbolo nacional. Por isso, o resgate das histórias dessas pessoas é essencial para a identidade cultural brasileira.”

