Nascido em 1913, no bairro da Corcundinha, no Rio de Janeiro, José Bispo Clementino dos Santos era um menino ágil e bom de bola, que trabalhava como jornaleiro para ajudar a família quando ganhou seu primeiro apelido nas ruas do bairro imperial de São Cristóvão: “moleque saruê”.
Na adolescência, tornou-se operário e passou a circular nas rodas de samba da Mangueira, onde tocava tamborim até que ele e o mundo descobrissem sua verdadeira vocação: ser um dos maiores cantores da história do Brasil.
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Levado por Onésimo Gomes, começou a cantar nas gafieiras do Rio. Consta que, nessa época, recebeu o apelido de Jamelão, nome que o acompanharia por toda a vida. Tive a sorte de vê-lo cantar do alto do palco de uma casa noturna em Curitiba, que teve vários nomes até ser destruída pelo fogo no início do século.
Na Mangueira, Jamelão assumiu o posto de intérprete dos sambas-enredo nos anos 1950, criando um paradigma eterno para a função. Tornou-se famoso pela voz imponente, pelas manias, mandingas e pelo adorável mau humor com chatos e deslumbrados do Carnaval.
Em 1957, lançou aquele que é considerado por muitos o melhor disco de Carnaval do país.
Odiava ser chamado de puxador – e tinha razão. Jamelão não era apenas a voz da verde e rosa: brilhou como crooner, especialmente ao lado da Orquestra Tabajara de Severino Araújo. Em 1952, encantou a alta sociedade francesa ao cantar em um baile promovido por Jacques Fath e Assis Chateaubriand.
Diz a lenda que Orson Welles estava presente e se impressionou com seu talento. Como crooner, ajudou a Orquestra Tabajara a superar, em pleno palco, uma big band americana em um duelo musical que entrou para a história.
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Nos anos 1950, consolidou sua carreira fonográfica, registrando interpretações marcantes do samba-canção. Clássicos como “Leviana”, “Folha Morta” e “Ela Me Disse Assim” mostraram que seu talento ia além dos desfiles.
A partir da década de 1970, passou a interpretar de forma definitiva a obra de Lupicínio Rodrigues. Seus sambas sobre amores desfeitos e corações machucados eram cantados com uma sobriedade que contrastava com a emoção das letras. Para os críticos, foi o maior cantor de “dor de cotovelo” do Brasil.
Em 1999, foi eleito o Intérprete do Século do Carnaval carioca. No mesmo ano, recebeu a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, concedida por Fernando Henrique Cardoso. Durante a cerimônia, dormiu sem cerimônia.
Jamelão faleceu em 2008, aos 95 anos. Seu corpo foi velado na quadra da Mangueira, coberto pelas bandeiras da escola e do Vasco da Gama, seu time do coração.