Por Sandro Moser

Durante décadas, o escritor Dalton Trevisan (1925-2024) se ocupou de “limpar” obsessivamente seus textos, grande parte deles narrativas curtas, nas quais cortava toda palavra desnecessária até a concisão absoluta.

Assim, de faca na mão, Dalton tornou-se o mais importante contista da língua portuguesa, inventou uma linguagem própria e construiu sua galeria de personagens inspirada na miríade de pobres diabos que habitam Curitiba.

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Durante o processo da montagem da peça “Daqui Ninguém Sai”, baseada na obra do escritor, cuja estreia nacional acontece na Mostra Lucia Camargo do 33º Festival de Curitiba, a diretora Nena Inoue e o dramaturgo Henrique Fontes seguiram seu exemplo.

Contos de Dalton Trevisan em forma de música em “Daqui Ninguém Sai’. Foto; Annelize Tozetto

“Como num conto de Dalton, tanto o texto quanto a cenografia foram lapidados até o essencial”, explica Nena. “Nós ouvimos o processo. Tínhamos uma ideia inicial, mas mudamos tudo nas últimas semanas e o elenco veio junto. Mas o trabalho não foi jogado fora, pelo contrário”, disse a diretora.

“Nosso espetáculo não é para iniciados. Queremos levar o Dalton para o público jovem, que não lê e talvez nem vá ao teatro. Nossa proposta inicial era essa e o processo nos levou a inserir a própria construção teatral na encenação”, conclui Nena.

Ingressos Gratuitos

“Daqui Ninguém Sai” é uma produção do Teatro de Comédia do Paraná (TCP) do Centro Cultural Teatro Guaíra (CCTG), e terá duas apresentações no Guairinha nos dias 25 e 26 de março, sempre às 20h30.

Os ingressos das apresentações são gratuitos. Parte deles será distribuída para convidados do CCTG e do Festival de Curitiba e outra será distribuída ao público em geral, por ordem de chegada, uma hora antes de cada espetáculo na bilheteria do teatro.

O elenco da peça foi selecionado por um edital público em janeiro deste ano e conta com os atores Carol Mascarenhas, Fábyo Rolywer, Laís Cristina, Madu Forti, Paula Roque, Paulo Chierentini, Sidy Correa, Simone Spoladore, Trava da Fronteira, Val Salles, Wenry Bueno e Zeca Sales.

Avesso do Bordado

Na dramaturgia de “Daqui Ninguém Sai” estão reunidos mais de 40 textos de Dalton Trevisan. Desde minicontos e haicais até narrativas mais longas, textos sobre esses escritos e cartas por ele enviadas a outros escritores brasileiros.

Nestas que são lidas em público pela primeira vez, Dalton fala sobre literatura em geral e sobre a sua própria, algo que não faz há muitas décadas. “Não tem um conto principal ou menos principal. Todos eles constroem a dramaturgia, assim como as cartas inéditas do autor”, disse Nena.

Leitura das cartas inéditas de Dalton Trevisan é um dos pontos altos da peça. Foto; Annelize Tozetto

Esta costura coube ao dramaturgo Henrique Fontes, que está mergulhado na obra do curitibano desde o inverno de 2024, com “intensidade e profundidade ímpares”. Ele conta que a versão final da dramaturgia surgiu após 25 tratamentos do texto.

“Precisei mergulhar na obra dele durante seis meses junto com a Nena. Nem todo conto de Dalton pode ir para o teatro, e temos a premissa de não adaptar, não mudar o texto, não cortar”, explica Fontes.

Nascido no Rio Grande do Norte, Fontes conta que não era leitor contumaz de Dalton até o início do processo e que este olhar “estrangeiro” ajuda a cumprir um dos objetivos da montagem, que é levar a arte do escritor para um público que ainda não o conhece.

“Foi enriquecedor conhecer mais a fundo a obra dele, que dialoga muito com o teatro, especialmente pela busca da expressão mais exata e precisa. E nós, no teatro, buscamos o essencial.”

Nome dado por Dalton

Daqui Ninguém Sai” foi batizada pelo próprio Dalton com o nome de um de seus contos, quando o escritor autorizou o projeto, meses antes de falecer, em dezembro de 2024, aos 99 anos.

Além do centenário de Dalton Trevisan, que completaria 100 anos em 14 de junho de 2025, a montagem também celebra a trajetória de mais de seis décadas do TCP, projeto iniciado em 1963 e que já produziu mais de setenta produções.

Cleverson Cavalheiro, diretor-presidente do CCTG, lembra que, quando a peça foi concebida, Dalton ainda estava vivo, e a equipe desejava comemorar o espetáculo ao lado dele.

O ator Sidy Corrêa cita o saudoso Mário Schoemberger em “O Ventre do Minotauro”. Foto; Annelize Tozetto

“Esta montagem é importante porque Dalton sempre teve uma conexão com o Teatro Guaíra. Ele representa muito a cidade, e é importante celebrarmos um dos maiores contistas do Brasil”, afirma Cavalheiro.

Cavalheiro também destaca a escolha da equipe técnica da peça que conta com iluminação de Beto Bruel, figurinos de Verônica Julian, cenografia de Carila Matzenbacher e trilha original de Grace Torres e Lilian Nakahodo, e Babaya na preparação musical, que musicaram alguns textos de Dalton para o espetáculo.

Por tudo isso, “Daqui Ninguém Sai” é uma das mais aguardadas da 33ª edição do Festival de Curitiba, mas a diretora Nena Inoue conta que não pretende ser revolucionária, mas fortalecer a expressão teatral da obra de Dalton Trevisan. “Nós queremos que o espetáculo seja impactante, e que o público diga no final da sessão: ”porra, Dalton é o cara!”

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Sandro Moser é jornalista e escritor.

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