Por Sandoval Matheus, do Festival de Curitiba 

Foi durante uma conversa aparentemente despretensiosa que os atores (e produtores) Emílio de Mello e Cláudia Abreu descobriram que tinham um sonho em comum: fazer um espetáculo mambembe na rua, de graça, viajando pelo interior do Brasil, levando teatro onde nem sempre se tem acesso a ele.

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Eles estrearam em novembro do ano passado, em São Luís do Maranhão e a partir daí viajaram por dez cidades de quatro estados, num ônibus que serve ao mesmo tempo de meio de transporte, cenário e camarim – e que quebrou algumas vezes pelo caminho.

Elenco estelar, espetáculo popular: OS Mambembes. Foto: Annelize Tozetto

Em uma dessas paradas, chegaram a reunir três mil pessoas em torno de uma praça. “Existe uma demanda, uma carência enorme no interior do Brasil. Não se gosta só de música. Se você oferece alguma coisa, as pessoas vão. É só abrir uma janelinha”, comentou o ator Orã Figueiredo, em entrevista coletiva feita na manhã desta segunda-feira, 24, na Sala de Imprensa Ney Latorraca, no Hotel Mabu.

“É neste momento que eu cumpro a minha função como o ator, fora do mercado, fora da lógica da minha carreira. Eu amo o público, tenho um carinho muito grande por ele. Entro em cena querendo abraçar cada um ali.”
Para Leandro Santana, a peça quebra a “ideia estranha” de que o teatro é algo “encastelado”, possível de ser acessado por poucas pessoas. “Ninguém precisa pensar com que roupa vai ou como deve se comportar. Por isso, ‘Os Mambembes’ fala do que realmente é importante no teatro.”

Uma aventura incrível

Em cada uma das sessões, o elenco ganhava o acréscimo de um ator local, e ainda fazia questão de promover rodas de conversa com os coletivos de cultura do lugar. “É uma aventura incrível, muito rica”, definiu Deborah Evelyn. “E a gente também consegue perceber como as dificuldades de artistas brasileiros em diferentes lugares são praticamente idênticas”, continuou o colega Leandro Santana.

Cláudia Abre fala da arte de ser mambembe. Foto: Annelize Tozetto

“Ali, na praça, encontramos pessoas que pela primeira estão entrando em contato com o teatro”, continuou Cláudia Abreu. “E estamos desprotegidos, de uma maneira positiva. Pode chover, alguém gritar, passar um bêbado, um cachorro.”

Por ora, ninguém ainda foi agredido por um cão ou mordido por um ébrio, mas o patrocínio do Instituto Cultural Vale, que financiava as viagens pelo “interior, do interior, do interior” acabou. Nesta noite, o espetáculo acontece pela primeira vez em um palco, como parte da abertura da 33ª edição do Festival de Curitiba. Depois, segue pro Rio de Janeiro e pra São Paulo, também no tablado.

“Estamos, além de muito nervosos, muito honrados. Eu participei do início do Festival de Curitiba e é muito bom ver como ele cresceu lindamente”, relembra Orã Figueiredo. “A peça é uma comédia, a gente que alegrar o público. É como uma cerveja gelada.”

O sonho, porém, é conseguir dinheiro pra voltar a circular pelos rincões perdidos do Brasil profundo. E surpreender um pessoal que vê um elenco tão estelar – que ainda conta com Paulo Betti, Julia Lemmertz e o músico Caio Padilha – chegar numa cidadezinha. Em Santa Inês, no Maranhão, por exemplo, um pai não acreditou quando a filha disse ia pegar uma carona de moto pra ver o atração na praça da cidade. Desconfiado, o patriarca desaconselhou. “Não vai não, minha filha. É mentira. Eles não vêm aqui.

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Sandro Moser é jornalista e escritor.

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