Na noite desta terça-feira (25), ao mesmo tempo em que a seleção argentina dava um baile na brasileira em Buenos Aires, um dos mais importantes bailarinos, coreógrafos e performers da Argentina, Ivan Haidar, hipnotizava a plateia na Caixa Cultural Curitiba na primeira sessão do espetáculo “No Estoy Solo” da Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba.
Antes da peça começar, Haidar permanece sentado, calado e incógnito no meio do público, que só percebe sua presença quando ele sobe ao palco. “A verdade, para mim, é que esse tempinho ajuda”, disse o artista, que fala português bem a ponto de usar diminutivos com naturalidade, durante a coletiva de imprensa na sala Ney Latorraca, no Festival de Curitiba.
“Sempre antes de cada peça, todo mundo faz um aquecimento. Para mim, isso faz parte dessa presença que o trabalho exige: estar cercado de pessoas, mas sozinho também.”
Essa dicotomia entre presença e ausência, surgiu muitas vezes durante a conversa com a imprensa em que o artista estava acompanhado da produtora e curadora Jimena García Blaya. “A peça propõe essa relação entre solidão e companhia, intimidade e a busca daquele outro que, às vezes, é um próprio, às vezes é um outro, mas, às vezes, é consigo mesmo”, afirmou.

Para ele, No estoy solo é uma “obra aberta”, que não busca um sentido fixo nem tenta transmitir uma mensagem específica. “Não tento fechar o significado, mas sim cria uma janela para olhar. E eu gosto de me expor, de ser a matéria da imagem oferecida nessa janela.”
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Questionado se o espetáculo estaria mais no campo da performance ou da dança contemporânea, Haidar não hesitou: “Para mim, é tudo dança. É o mundo de onde eu vim. Não há fronteira. São misturas de linguagens que a gente cria para compartilhar uma perspectiva de mundo e afetos — uma forma de ver e entender as relações entre a peça e o público.”
Outra questão sobre a qual a dupla responsável pelo espetáculo não tem dúvidas é quando a situação da classe artistas e a o ataque às políticas culturais argentinas durante o governo de Javier Millei. Desta vez, quem verbalizou, também em fluente português, foi a produtora Jimena.
“A situação [na Argentina] é muito ruim. A questão não é só com as artes cênicas. É uma situação geral — social, econômica, política. A gente está vivendo tempos de muita perseguição. Não só por falta de dinheiro para financiamento de projetos, mas também no sentido literal da palavra: de não contratar pessoas, de fechar as curadorias dos espaços públicos para determinadas pessoas, determinados conteúdos. A gente não pode falar em lugares públicos.”
Gimena destacou a luta da classe artística para manter os espaços duramente conquistados. “É uma questão de sobrevivência. E uma disputa pelo sentido das coisas. Não é só uma crise econômica. Essa agenda que eles impõem fala de dinheiro o tempo todo, mas a questão mais perigosa — e que eu gosto de compartilhar — é que a gente não é o passado do Brasil. A gente é o futuro do Brasil.”