Por Gabriel Costa
“Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” é daqueles filmes que marcaram uma geração por uma série de fatores: roteiro inovador, atuações memoráveis, estética disruptiva e, claro, a grande questão que permeia a trama: vale a pena apagar alguém da memória?
+ Leia Também + Drag Queen não é bagunça, não
A peça Brilho Eterno — inspirada livremente no longa e que teve duas sessões no Teatro Guaíra, nos dias 29 e 30 de março no Festival de Curitiba — nos ajuda a refletir sobre a pergunta proposta por Charlie Kaufman em 2004. Brilho Eterno é dirigido e idealizado por Jorge Farjalla, e os famosos Joel (Jim Carrey) e Clementine são Jesse (Reynaldo Gianecchini) e Celine (Taina Muller) — em provável referência a Antes do Amanhecer.
Em decisão artística interessante, os protagonistas da peça comentam sobre o filme, criando uma metalinguagem que diverte os fãs do clássico. Eles brincam com a semelhança entre o cabelo de Celine e o de Clementine, fazem piadas sobre os nomes dos personagens e até chegam a segurar o DVD em determinado momento.
Ao reconhecerem que Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças faz parte do universo da peça, estabelecem imediatamente uma proximidade com o público. É assim que começa o espetáculo.
Clássico Imperfeito, Mas Necessário
Mesmo não sendo um filme perfeito, a originalidade de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças o destaca entre outras histórias de amor da época. Seu grande mérito está na forma como retrata o ciclo de um relacionamento: começo, meio e fim. E, no caso de Joel e Clementine, o recomeço.
O público se envolve genuinamente com os protagonistas e seus sentimentos, torcendo para que o final seja diferente do que foi na primeira vez. Mas claro, como dito antes, o filme não é perfeito, e seu ponto fraco reside na construção da personagem de Kate Winslet — algo que não é culpa da atriz.
Como a trama é narrada sob a perspectiva de Joel, Clementine assume o papel de salvadora de sua solidão, sem um desenvolvimento que a torne uma pessoa real e complexa.
Para estudiosos do cinema, Clementine se encaixa no arquétipo da manic pixie dream girl: um tipo de personagem feminina excêntrica e vibrante, cuja função na história é inspirar e transformar o protagonista masculino, sem um arco narrativo próprio.
Esse trope foi marcante no cinema dos anos 2000, gerando personagens como Summer (500 Dias com Ela), Claire (Elizabethtown) e Sam (Garden State).
Inversões, Acertos e Problemas
Na peça, curiosamente, o que acontece é justamente o contrário. Celine é muito mais do que uma parte da narrativa do protagonista homem. Além de ser excêntrica, ela também tem sua sexualidade e sentimentos explorados de uma maneira com que ela pareça alguém que conhecemos — no melhor dos sentidos.
O problema da peça está justamente em Jesse, interpretado por Reynaldo Gianecchini. Enquanto Joel, no filme, carrega um ar melancólico e misterioso, Jesse é tagarela e, em certos momentos, irritante. Isso enfraquece o peso da frase.
“Falar o tempo inteiro não é se comunicar”, dita tanto na peça quanto no longa, já que, na adaptação teatral, a dinâmica entre os protagonistas não sustenta essa reflexão. As peculiaridades de Jesse e Celine não se complementam como as de Joel e Clementine, e, por isso, sua conexão não parece forte o suficiente para que a decisão do apagamento tenha o mesmo peso emocional que no filme.
Na peça, essa decisão parte de Jesse, após Celine terminar com ele devido a mais um de seus momentos de grosseria. Já no filme, é Clementine quem toma a decisão, em uma situação que Joel considera impulsiva, tentando, assim, vilanizar a mulher.
Em uma cena marcante, a personagem de Tainá Müller deixa claro que, ao contrário da “menina do filme”, o limite dela é bem menor. Ao final, a sensação que fica não é de perda ou lamento, mas sim de alívio por Celine, que realmente merecia algo muito melhor.
O grande acerto da peça está em seu cenário, iluminação e trilha sonora. No centro do palco, uma caixa de quatro lados sobre rodinhas serve como elemento central da ambientação — permitindo que os próprios atores a movimentem.
Cada lado da estrutura representa um cenário distinto: a livraria onde Celine trabalha, a casa de Jesse, a porta do elevador e uma escada, que os atores sobem ao longo da peça. A iluminação, em conjunto com a trilha sonora, cria uma atmosfera quase distópica.
Embora não tenha sido uma inspiração declarada, em certos momentos a estética remete ao filme A Substância (2024), conhecido por sua trilha eletrônica que molda a montagem do longa. O batidão pulsante, acompanhado de luzes piscando e movimentos frenéticos, pontua as transições temporais do espetáculo, fato que intensifica a imersão do público.
Ruptura temporal no elevador
O elevador é um elemento de importância gigante dentro da peça. É nele que Jesse e Celine se conhecem “novamente” e onde é explorada a linha temporal da peça — propositalmente confusa. Ao dar destaque a um elevador não tem como não pensar, será que rolou uma inspiração em Ruptura? A própria peça faz pensar que sim, visto que Celine chega até mesmo a citar a série.
No espetáculo, também, surge a dúvida de se o procedimento pode dar errado por os protagonistas se amarem demais. Quem viu a obra da Apple TV sabe… “O amor transcende a ruptura?” Os Médicos do Esquecimento
No filme, os responsáveis pelo procedimento de apagamento de memória de Joel são marcados pela irresponsabilidade e descaso diante de algo tão delicado. Em meio à sessão, eles bebem, dançam e tratam o processo com uma leveza perturbadora, como se não estivessem lidando com a mente de um ser humano.
Em certo momento, por pura incompetência e desatenção, são obrigados a chamar o Dr. Howard Mierzwiak, criador da tecnologia, para ajudá-los a concluir o procedimento. Mal sabem eles que, dentro do cérebro de Joel, os verdadeiros protagonistas estão fugindo desesperadamente para preservar suas lembranças.
Na peça, os médicos são retratados de forma ainda mais estilizada, vestindo trajes inspirados nos tratamentos da peste negra e se comunicando quase como três diabinhos prestes a executar sua maior vigarice.
O ponto de convergência entre as duas versões está no fato de um dos responsáveis pelo procedimento se apaixonar pela protagonista feminina. Tanto no filme quanto no espetáculo, essa subtrama serve para evidenciar ao protagonista masculino o que ele perdeu e gerar no público a sensação de que aquilo não passa de uma ilusão — um amor artificial, sem a profundidade da relação entre Joel/Jesse e Clementine/Celine.
Porém, na peça, essa dinâmica esbarra em um problema já mencionado: a falta de conexão real entre Jesse e Celine. O impacto de vê-la com outra pessoa é reduzido, pois a peça não nos apresenta momentos suficientes de felicidade entre os dois para que sintamos a frustração da perda.
Além disso, outro elemento que difere a adaptação é a ausência da luta dos protagonistas para preservar suas memórias — um dos aspectos mais marcantes do longa. Sem essa jornada emocional, a dor do esquecimento perde parte de sua força.
Um dos grandes acertos da peça foi expandir o conceito do apagamento de memórias para além dos relacionamentos românticos. O espetáculo apresenta a história do vizinho de Jesse, que todos os anos, na véspera do Dia dos Namorados, o encontra e, por se sentir solitário, o convida para jantar com ele e sua mãe.
No entanto, em determinado momento da trama, sua mãe falece, e ele passa a fazer o convite sozinho, para manter a tradição viva. É esse vizinho quem apresenta Jesse ao procedimento de apagamento, pois já o utilizou — com sucesso — para se livrar da dor da perda materna.
Entre acertos, dúvidas, erros e reflexões, Brilho Eterno se destaca como uma ótima maneira de preservar a memória do roteiro clássico de Kaufman — que não pode ser esquecido. A peça substitui o tom melancólico por mais risadas e as cores frias por uma iluminação vibrante.
A atualização dos problemas da obra original é louvável. E não tem como sair do teatro sem ser fã de Celine. É uma pena que a peça não tenha conseguido reproduzir com o mesmo sucesso o amor apaixonante de Clementine e Joel. Mas não é por isso que deixa de ser importante. No teatro, sim, valeu a pena o apagamento para esquecer aquela dor.
Agora no cinema? Bem… sabemos a resposta!