Há uma tradição no cinema mundial de “filmes de barco”, aqueles em que uma tripulação heterogênea precisa aprender a conviver e resolver conflitos entre a proa e a popa durante o lerdo escoamento da embarcação até seu destino.
“O Último Azul”, longa de Gabriel Mascaro que estreou ontem nos cinemas de todo o Brasil, já é o maior representante desta estirpe cinematográfica, mas é muito mais que isso.
+ Leia Também + O Último Azul estreia no Brasil inteiro com preços promocionais
É um dos grandes filmes nacionais desta década profícua e histórica do audiovisual brasileiro e, devo dizer, de qualquer tempo.
Um filme supreendentemente original que merece todo o reconhecimento de crítica e público que está tendo após ser multipremiado em festivais internacionais e receber o Urso de Prata (Grande Prêmio do Júri) no Festival de Berlim.
Voltando à questão dos “boat movies”, filmes de estradas fluviais, Mascaro certamente trouxe referências no clássico Uma Aventura na África (African Queen), de John Huston, de 1951, em que um barqueiro inescrupuloso (Humphrey Bogart) precisa conduzir uma freira (Katherine Hepburn) em um território hostil.
A diferença é que na navegação de cabotagem de O Último Azul há os rigores e demasias da última camada do Brasil profundo: caramujos alucinógenos, crime organizado, tormentas tropicais, sabedoria ancestral.
A primeira parte do filme, em que Rodrigo Santoro e Denize Weinberg escorrem por um rio amazônico, é como se o African Queen fosse movido a rapé amazônico nos leitos da distopia brasileira.
Tudo isso com uma fotografia impecável e estonteante de Guillermo Garza que, de alguma forma, conversa com o trabalho de mestres brasileiros da arte de registrar as cores vibrantes desta visualidade ribeirinha comoLuiz Braga e outros.
Outra diferença é que os personagens não são de todo bons ou maus, têm virtudes e fraquezas para dar e vender.
Aliás, o roteiro constrói personagens complexos, inesquecíveis, que entram e saem da trama e, como já disse um colega, deixam o público torcendo por um spin off de cada um deles.
E quando a nau chega ao destino, as coisas não são como previstas e, neste caso, dá para ver a influência de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, a quem Mascaro cita em outra cena fundamental do roteiro.
Mas ainda que com muitas referências sagazes, O Último Azul é o filme brasileiro mais original feito em muito tempo a partir de seu argumento.
Um governo autoritário e cruelmente liberal cria um pogrom para se livrar dos idosos, tirando do mercado de trabalho e do convívio as pessoas que atingem determinada idade.
Os mais velhos são colocados em carrocinhas (“cata-velhos”) e levados para uma “colônia”, enquanto o governo indeniza as famílias, que agradecem por terem se livrado de seus velhos.
Ainda ativa e com boa saúde, uma mulher decide que não vai para o exílio antes de cumprir um último desejo.
Denize Weinberg têm atuação magistral no papel desta anciã rebelde e sua inconformada busca da liberdade de viver cada momento contra o utilitarismo totalitário.
Entre a fábula e a ficção científica, O Último Azul é um filme absolutamente formidável, que incomoda e encanta muito ao mesmo tempo, como sói acontecer com a grande arte.
E do primeiro fotograma à cena final, com um clássico da escatologia poética como trilha, precisa ser visto coletivamente numa sala de cinema.