Há uma daquelas expressões sem dono identificável que parte do Brasil costuma repetir, afirmando que, “se Deus precisasse um dia cantar, usaria a voz de Milton Nascimento”.

Sou dessa turma. Nas últimas seis décadas, a arte do genial cantor carioca, radicado em Minas, tem sido uma das forças etéreas que movem a natureza.

Em uma matéria recente publicada no New York Times, alguns artistas contemporâneos de Milton tentaram definir sua voz, que transita entre um “barítono aveludado e um falsete celestial”.

Paul Simon a descreveu como uma “mágica sedosa”. Philip Bailey, do Earth, Wind & Fire, a comparou a “uma bela praia brasileira”. Sting disse que havia “verdade na beleza” da voz de Milton.

Não que precisássemos de validação além dos mais de 50 álbuns lançados por Milton e de tudo o que ele fez pelo mundo desde os anos 1960 — até emocionar o país com sua turnê de despedida, aliás registrada no filme Milton – Bituca Nascimento, que estreia em breve.

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Este breve anteâmbulo antecede o apoio ao repúdio que a nação bituqueira, representada institucionalmente pelo Ministério da Cultura (MinC), demonstrou diante do tratamento dispensado a Milton Nascimento na cerimônia do Grammy 2025.

Milton e sua parceira de longa data, a jazzista americana Esperanza Spalding, concorriam com o belo álbum Milton + Esperanza, aparentemente o último registro fonográfico da voz divina. Mas a produção do convescote da indústria impediu Milton de sentar-se com sua colega na área dos artistas concorrentes.

Aliás, Esperanza teve comportamento exemplar, à altura de seu talento, e como amiga e artista vocalizou o sentimento da “nação bituqueira”. “É revoltante que essa lenda viva não tenha sido considerada importante o suficiente para estar entre as pessoas da lista A”, desabafou a cantora nas redes sociais. Diante da recusa, Esperanza decidiu protestar e levou uma placa com o rosto de Milton para a área VIP.

Nosso Ministério da Cultura reforçou o coro: “A decisão da Academia de posicioná-lo em um local incompatível com sua trajetória, prestígio internacional e necessidades físicas demonstra falta de sensibilidade e respeito a um dos maiores nomes da música brasileira”, declarou o MinC em nota.

A situação se torna ainda mais constrangedora quando lembramos que o genial artista — que já ganhou cinco Grammy— está, aos 81 anos, com algumas dificuldades de locomoção. Me recordar a vez em que Paul McCartney foi barrado numa festa em Hollywood por não ser VIP.

São tempos estranhos. Acho que nem todo mundo consegue ouvir a frequência divina da voz de Milton.

Tanta deselegância com aquele que talvez seja o maior cantor da história causa um sentimento embaraçoso que mistura etarismo, preconceito, ignorância e estupidez  — algo que só passa ao ouvirmos uma das muitas obras-primas de Milton Nascimento, pois “todo dia é dia de viver”.

 

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Sandro Moser é jornalista e escritor.

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