No ano do centenário de seu nascimento, o escritor Dalton Trevisan – falecido em dezembro passado, aos 99 anos – ganhará sua primeira biografia. O livro, escrito pelo ensaísta, jornalista e tradutor Christian Schwartz, será lançado no segundo semestre pela editora Todavia. O autor revelou ao repórter Fabio Victor, da Folha de S.Paulo, que teve acesso à correspondência completa e a parte dos diários mantidos por Trevisan durante décadas, além de depoimentos do próprio escritor.
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Mestre em estudos literários e doutor em história social, Schwartz também traduziu para o português autores como F. Scott Fitzgerald, Philip Roth e Nick Hornby. Leitor entusiasta de Dalton, Schwarz procurou em 2023 Fabiana Faversani, agente do escritor, para sondar a possibilidade de consultar o acervo pessoal. Para sua surpresa, descobriu que foi o primeiro a pedir esse acesso e que seu pedido foi aceito.
As Cartas
Ele então iniciou sua pesquisa com as cartas, das quais uma pequena parte era conhecida, disponível na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Trevisan, um notório missivista, trocou correspondência com nomes como Carlos Drummond de Andrade e Otto Lara Resende.
O acesso completo revelou 2.297 cartas, incluindo 600 trocadas com Resende, fundamentais para entender seu processo literário. Trevisan datilografava suas cartas com papel carbono e guardava cópias, documentando detalhadamente sua trajetória.
O biógrafo contesta a fama de reclusão do autor. Segundo ele, a imagem do “vampiro de Curitiba” decorre da rejeição a jornalistas e curiosos, mas não de isolamento social. “Ao longo de 95 anos, não houve um dia em que ele não saísse de casa e falasse com várias pessoas”, afirmou Schwartz.
O diário
Aos poucos, o acesso se ampliou para os diários, distribuídos em 31 cadernetas e quase 3.000 laudas datilografadas. Schwartz solicitava trechos específicos conforme ia estruturando sua narrativa. A pesquisa revelou detalhes da vida do autor, como um encontro inesperado com Manuel Bandeira em 1947, quando Trevisan ainda era um jovem desconhecido.
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Além dos diários e correspondências, Schwartz também examinou a biblioteca pessoal do escritor, com 2.373 volumes repletos de anotações marginais. “Ele era um leitor-anotador compulsivo”, destacou `Folha de S. Paulo. O acervo, doado ao Instituto Moreira Salles e ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP, está sendo digitalizado e deve integrar exposições pelo centenário do escritor.
Os depoimentos
Schwartz também obteve depoimentos do próprio Trevisan, então com 98 anos, já sem sair de casa, mas ainda lúcido. Como o escritor rejeitava entrevistas, sua agente gravou pouco mais de uma hora de falas dele, baseadas em perguntas enviadas pelo biógrafo, além de questionários respondidos por escrito.
Schwartz optou por não entrevistar amigos e conhecidos do contista, justificando que queria evitar interpretações míticas sobre sua figura e se concentrar na obra. “Toda biografia literária é um pouco um ensaio”, afirmou, acrescentando que Trevisan, apesar de discreto, promovia ativamente sua própria obra, distribuindo textos e mantendo extensas redes de correspondência.
“Talvez o cara menos biografável da literatura brasileira seja Dalton Trevisan”, brincou Schwartz, acrescentando que buscou mergulhar na “intimidade da obra” do autor e espiar sua existência pelo buraco de uma fechadura.