Por Sandoval Matheus, do Festival de Curitiba
Aos 62 anos, completamente grisalho, e depois de ter passado por uma experiência de quase morte – levou três tiros ao reagir a uma tentativa de assalto, em 2009 – Mário Bortolotto segue dando respostas rápidas, francas e diretas a qualquer pergunta que lhe apareça pela frente. Quer saber por que ele escolheu quatro peças específicas – “Deve ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio”, “Notícias de Naufrágios”, “Whisky e Hambúrguer” e “Efeito Urtigão” – para estarem na Mostra Fringe, comemorando os 43 anos do Cemitério de Automóveis, seu grupo de teatro?
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“Dinheiro”, ele fala, sem fazer firula, durante entrevista coletiva nesta quarta-feira, 02, na Sala de Imprensa Ney Latorraca, no Hotel Mabu. “Eu tinha um determinado orçamento, e precisava de peças que pudesse fazer com poucos atores. E também de atores que pudessem atuar em mais de uma peça.”
E algo a dizer sobre o fato de ser visivelmente influenciado pela literatura e dramaturgia norte-americana, o que hoje em dia poderia ser facilmente classificado como “pensamento colonizado”?
“Eu sou roqueiro, gosto de rock. E rock é americano. Os ingleses fizeram até que bem, mas é americano. Eu não gosto muito dos Estados Unidos, mas gosto da cultura deles. É meio engraçado isso, paradoxal.”
Ator, dramaturgo, diretor e veterano do teatro underground, nas mais de quatro décadas em que capitaneia o Cemitério de Automóveis, Bortolotto teve seu momento de maior glória no ano 2000, quando venceu o Prêmio Shell de Melhor Autor pelo texto de “Nossa Vida não Vale um Chevrolet”. Pouca gente sabe, no entanto, que ele tinha montado a mesmíssima peça no início dos anos 90, em sua cidade natal, Londrina, e se dado miseravelmente mal.
“Não aconteceu, as pessoas até tiveram uma certa repulsa pela peça”, conta. “Uns anos depois, eu decidi que queria montar de novo em São Paulo aquele fracasso, até porque eu gosto de fracassos.”
Acabou vencendo a maior honraria do teatro brasileiro, mas não sem alguma controvérsia. “Esse negócio de prêmios também é meio cascata. Depende muito de quem está no júri em cada época”, pontua. “Agora faz dez anos que eu não sou indicado a nada. Os caras dos júris nem vão ver minhas peças. Eles querem ser convidados, bajulados, e eu não faço isso.”
“É no meio alternativo que eu consigo fazer o que faço, sem concessões, de maneira radical, dizer o que quero dizer”, continua. Para o crítico Miguel Arcanjo, o melhor é que Bortolotto faz tudo isso sem experimentalismos ou invencionices, usando apenas a antiquada ferramenta de colocar os personagens no palco e deixar que eles se resolvam. “Os atores e o texto são o que me interessa”, garante o diretor.
E como é trabalhar com Mário Bortolotto? A atriz Gabriela Fortanell responde: “É muito fácil. Ele é muito sossegado. É uma direção muito objetiva. A única coisa que ele exige é o texto decorado”.
“A verdade é que eu quero terminar logo o trabalho”, retoma Bortolotto. “Tem diretor que parece que não tem vida particular, quer bancar o guru, ser ouvido o dia inteiro. Eu não quero passar o dia trabalhando, quero sair e tomar uma cerveja com meus amigos.”
Parece um bom método, mas depois de 43 anos, deu certo? “Eu sou realizado. ‘Feliz’ é uma palavra pesada.”