Envelhecer não é fácil. A experiência transforma a vivência, mas vem acompanhada da luta contra padrões de beleza e juventude impostos socialmente, além da preocupação com saúde e dinheiro, que naturalmente escasseiam. Essas questões são comuns a todas as pessoas — especialmente aos heterossexuais.
No universo LGBTQIAPN+, essas preocupações se somam a um rosário particular de preconceitos, muitos deles vindos de dentro da própria sigla. Afinal, ser “velho” para homens gays é, em muitos casos, uma sentença de invisibilidade e solidão.
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O texto de Renato Turnes, que também assina a direção e atua no monólogo Homens Pink, em cartaz na Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba, aborda essas questões com sensibilidade. A obra recupera a trajetória de ancestralidade dissidente de homens LGBT que ousaram viver plenamente em tempos de repressão, enfrentando a ditadura militar e, depois, a devastação causada pela epidemia de AIDS nos anos 1980. Uma resistência marcada tanto pela luta quanto pela celebração.

Com uma cenografia enxuta — uma cadeira, uma arara com peças de figurino e acessórios — Turnes narra as histórias de nove homens gays de São Paulo e Florianópolis. Trata-se de um espetáculo documental e biográfico que utiliza fotos e projeções para compor um mapa histórico-afetivo de espaços icônicos da cultura gay em cada cidade.
Da infância à juventude, do medo à liberdade, das rejeições familiares à formação de novas comunidades, o espetáculo percorre temas universais para a população LGBT+. Mesmo que, hoje, muitos assuntos não sejam mais tratados como tabu, as feridas e marcas permanecem.
Reverência
Homens Pink presta reverência a esses nove senhores desbravadores, que abriram caminhos para novas gerações. A montagem também alerta para o preconceito que persiste — muitas vezes vindo dos próprios beneficiários da luta de quem veio antes.

A essa geração que sobreviveu à AIDS, que ajudou a construir a cultura drag (na época chamada de transformista) e que sustentou, com coragem, a dignidade, o orgulho e os direitos da comunidade LGBT+, devemos muito. Esses Homens Pink não apenas fizeram parte da história. Eles são a história.
Veja como foi a entrevista coletiva de Renato Turnes: diretor da peça Homens Pink
Diretor de ‘Homens Pink’ ouve o som libertador da quebra dos tabus
O barulho da demolição de um telhado em uma obra ao lado do Hotel Mabu interrompeu a declaração do diretor Renato Turnes durante entrevista coletiva sobre o espetáculo Homens Pink, que estreou nesta quarta-feira, na Mostra Lucia Camargo, do Festival de Curitiba. A segunda sessão acontece nesta quinta-feira (3).
“São os tabus sendo quebrados”, brincou o diretor, que falava justamente sobre a conexão de seu espetáculo com outras peças do festival que abordam temas relacionados ao envelhecimento.
“Precisamos falar sobre a velhice a partir de narrativas novas. A curadoria do festival está conectada com este momento da sociedade”, completou.
A peça Homens Pink é um desdobramento do projeto de um filme documentário dirigido por Turnes — e que está disponível no YouTube — cujo ponto de partida são os depoimentos de homens gays com mais de 70 anos.

Personagens que viveram a maior parte de suas vidas fora do armário e foram inspiradores para a juventude do diretor, como o ex-curador do Festival de Curitiba Celso Curi, Carlos Eduardo Valente, José Ronaldo, entre outros. Além de suas memórias, eles abriram documentos, objetos, fotos e vídeos de acervos particulares.
“Os homens pink foram jovens em plena ditadura e me meio a um tempo politicamente opressor viveram uma intensa efervescência criativa na subcultura gay. A peça tem humor, glamour, pegação e sexo. É uma reflexão sobre estar vivo como homem gay velho — sem cair no trágico ou no pesado. Como a vida, que é feita de dores, alegrias, perdas e conquistas.”
Uma das histórias, a do cabeleireiro Julio Rosa, exemplifica bem a “pegada” que Turnes quis dar aos dois projetos. Expulso de casa aos 13 anos, Julinho, como é conhecido, viveu nas ruas até ser adotado por uma travesti que o protegeu. Graças a isso, pôde estudar, tornar-se cabeleireiro e, hoje, está perto dos 70 anos.
“Apesar de dramática, a maneira como ele narra sua trajetória é hilária, representando um olhar livre das amarras do sofrimento”, disse Turnes. “Nunca tive a intenção de fazer um trabalho sobre a vida no armário, opressão e sofrimento. Eu queria celebrar a história de vidas que sempre estiveram à frente, colocando a cara à tapa. Aqueles que vieram antes”, afirma.
O ponto de conexão entre todas as histórias, contudo, não tem nada de glamouroso: a epidemia da AIDS nos anos 1980.O advento da doença representou uma reviravolta na forma como a sociedade via a comunidade gay e a imagem que ela própria tinha de si mesma. Para Turnes, foi uma devastação comparável à de uma “guerra civil”, que anulou uma geração inteira e esvaziou referências culturais, afetivas e sociais.
Para ele, o espetáculo também propõe a retomada do diálogo entre gerações divididas pela epidemia. “É preciso fazer os mais jovens perceberem que houve vida e luta antes. Falta reverência. Quando entendemos que a história é coletiva, a gente não se sente sozinho. Saber que houve quem preparasse o caminho nos dá força para pensar em um futuro possível.”