O mês de fevereiro começou com uma notícia bomba para a comunidade literária nacional: o acervo do poeta Haroldo de Campos, um material de mais de vinte mil livros e documentos importantes para pesquisadores, foi retirado da Casa das Rosas, espaço ao qual a família havia destinado o material, e transferido para Barueri, sob pretexto de realizar-se a manutenção e restauração do acervo.

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A remoção da biblioteca do poeta, crítico e tradutor Haroldo de Campos, não foi comunicada à família o que fez com que Augusto de Campos, irmão de Haroldo, aos 93 anos, considerado o mais importante poeta vivo da língua portuguesa, definisse o caso como um “crime cultural inominável”, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo.

“São 21 mil volumes de alta qualidade literária, artística e histórica que passam a ter dificultado o seu acesso, assim como os pertences de meu irmão que a acompanham. O governo tem o dever de explicar ao público essa conduta suspeita e sub-reptícia”, disse Augusto de Campos, um dos fundadores do grupo de poesia concreta, em São Paulo.

“Apelo à ministra da Cultura e ao Ministério Público para que atentem ao problema e atuem no sentido de coartar medidas arbitrárias que venham ferir o interesse público e atentar contra a informação e a educação não só de brasileiros, mas de muitos estrangeiros que vêm a São Paulo para consultar a biblioteca e as anotações de Haroldo. Ainda estamos aqui”, afirma o poeta.

Segundo Daisy Rezende, viúva de Ivan de Campos, filho único de Haroldo, disse ao mesmo jornal que a Casa das Rosas entrou em contato com ela apenas após o início do processo de retirada. A coleção inclui livros assinados e com dedicatórias a Haroldo, volumes com anotações e grifos do poeta, além de títulos sobre o concretismo vindos de diversas partes do mundo. A família não descarta que o material seja doado a outra instituição por rompimento de contrato.

O site FAROFAFÁ apurou que a direção da Casa das Rosas enviou uma mensagem aos conselheiros da organização que cuida do acervo, informando que removia o material “devido às condições de umidade e de traças no subsolo da Casa das Rosas”. A justificativa tem sido questionada pela família e por pesquisadores, pois a Casa das Rosas passou por recente revitalização e, sendo um bem tombado, não poderia ter chegado a esse estado de deterioração sem responsáveis.

Em nota, a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo afirma: “Para garantir condições adequadas para a preservação da coleção de Haroldo de Campos, o acervo foi transferido para uma reserva técnica, que conta com o ambiente apropriado para preservar os itens. Assim como era feito quando o acervo estava na Casa das Rosas, a visitação e consulta aos materiais pode ser feita mediante agendamento”.

Guarda do acervo

O Museu Casa das Rosas em São Paulo. Foto: Reprodução – @casadasrosas.org.br

O acervo de Haroldo inclui raridades, como livros, discos, objetos pessoais e correspondências com o casal Max Bense e Elisabeth Walther-Bense. Há também a coleção de Luiz Carlos Vinholes, divulgador da poesia concreta no Japão e em outras partes do mundo.

A viúva do filho de Haroldo diz que não é interesse da família que “a biblioteca fique trancada em Barueri”. A forma como o poeta lidava com os livros reflete a forma como a família quer que o acervo seja acessado pelo público. “É muito ruim um livro virar um totem”, ela afirma, no sentido de ser de difícil acesso.

Desde 2004, a instituição incorpora o nome do poeta concreto — Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. A retirada do acervo, finalizada em janeiro, despertou críticas de professores e pesquisadores de literatura, que lamentam o esvaziamento do espaço, reaberto em outubro de 2023 após uma reforma de dois anos orçada em R$ 4,2 milhões.

Após a morte de Haroldo de Campos, aos 73 anos, todo seu acervo pessoal foi doado à Secretaria da Cultura do Estado. A Casa das Rosas, tombada como patrimônio histórico, assumiu a função de disseminar esse acervo e promover debates literários.

Abaixo Assinado

Diversos autores manifestaram revolta com a decisão nas redes sociais, e um abaixo-assinado já soma 1,3 mil assinaturas pela restituição do acervo. O movimento alerta para um “desmantelamento e mudança de perspectiva deste importante centro cultural paulistano promovido na calada da noite, sem que sejamos informados de tais mudanças”.

A requisição demanda que a Casa das Rosas não apenas recupere e preserve o acervo de Haroldo de Campos como retome seus “valores iniciais que são promover a diversidade cultural, promover cursos, oficinas literárias e eventos ligados à poesia e literatura”.

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Sandro Moser é jornalista e escritor.

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