Considerado por muitos o maior contista da língua portuguesa, Dalton Trevisan nunca foi lido e celebrado como deveria no Brasil. A opinião é de Nene Inoue, diretora de “Daqui Ninguém Sai”, durante entrevista coletiva na manhã desta terça-feira, 25, na Sala de Imprensa Ney Latorraca, no Hotel Mabu.

+ Leia também + Na cabeça de Leminski moram muitas pessoas 

O espetáculo montado a partir da obra do curitibano estreia nacionalmente dentro da programação da Mostra Lucia Camargo na 33ª edição do Festival de Curitiba, com ingressos gratuitos.

O elenco e a equipe de ‘Daqui Ninguém Sai”. Foto: Annelize Tozetto

“A peça é uma celebração do Dalton e do teatro”, explicou Nena Inoue, que revelou ter planos pra circular com a montagem pela Região Metropolitana de Curitiba e também num projeto-escola, a fim de levar a obra de Trevisan para as novas gerações. “Foi tudo muito honesto, e acho que nunca trabalhei tanto em toda minha vida.”

O processo de criação de “Daqui Ninguém Sai” foi, pode-se dizer, turbulento. Nas últimas semanas, todo o projeto original foi abandonado e a dramaturgia precisou ser reconstruída do zero. “Foi desesperador”, brincou o ator Val Salles, escolhido, como todo o restante do elenco, a partir de um edital do Centro Cultural Teatro Guaíra. A produção do Teatro de Comédia do Paraná. “Ao mesmo tempo, isso traz frescor pra obra.”

A atriz Carolina Mascarenhas preferiu ver a ruptura com olhos menos dramáticos. “O trabalho do ator é recomeçar todo o dia. Foi só um pouquinho mais intenso do que a gente está acostumado”, contemporizou.

O texto que vai aos palcos teve ao todo 27 tratamentos, usa 60 contos de Trevisan e, apesar da notória ojeriza ao autor ao escrutínio público, pela primeira vez lê em cena parte da correspondência íntima que ele trocou com personalidades como Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade.

O dramaturgo Henrique Fontes. Foto: Annelize Tozetto

 

“O Dalton sempre gostou muito de teatro, até escreveu no início da carreira. E sempre teve muito carinho pela Nena”, explicou Fabiana Faversani, agente, melhor amiga de Dalton e espécie de consultora de “Daqui Ninguém Sai”. “Quando ele autorizou o projeto, foi porque sabia da capacidade que o teatro tem de chegar nas pessoas e também o quanto seria respeitado. O Dalton sempre foi um controlador, tanto da sua imagem, quanto da sua obra.”

Apesar de no início não ter ainda muita familiaridade com a obra do autor, o dramaturgo Henrique Fontes, um potiguar parceiro de longa data de Nena Inoue, manteve o respeito ao texto do curitibano como cláusula irrevogável durante todo o processo. “O desafio era criar uma dramaturgia sem mudar nenhum conto. Foi um trabalho de montagem”, explicou.

O resultado pode revelar um Dalton Trevisan desconhecido das novas gerações, exatamente como fez para a atriz Laís Cristina, na casa dos 20 anos, que encara um dos seus primeiros trabalhos “adultos” em “Daqui Ninguém Sai”.

“O Dalton é muito diferente do que eu imaginava. Não é alguém machista e misógino, como a imprensa muitas vezes pintou, mas alguém que escrevia o que escrevia, e como escrevia, pra fazer uma denúncia de tudo isso.”

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Compartilhar.

Patrocínio

Realização

Fringe é uma plataforma de comunicação e entretenimento sobre arte e cultura brasileiras criada dentro do Festival de Curitiba e conta com o patrocínio da Petrobras

wpDiscuz
0
0
Deixe seu comentáriox
Sair da versão mobile