Pela primeira vez na história do evento, a 33ª edição do Festival de Curitiba consegue contemplar, na Mostra Lucia Camargo — a mostra principal do festival —, espetáculos das cinco regiões brasileiras.
Neste ano, entre os 26 espetáculos que compõem a grade final da Mostra Lucia Camargo, a curadoria programou espetáculos das regiões Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste, além de um eixo de conexão com o Cone Sul, com quatro peças: três da Argentina e uma do Uruguai.
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A nacionalização da Mostra Lucia Camargo era um desejo do trio de curadores Danielle Sampaio, Giovanna Soar e Patrick Pessoa desde que assumiram a esta posição no festival em 2023. No ano passado, houve avanço neste sentido com a formação do Eixo Amazônico, que trouxe quatro espetáculos da região Norte. No entanto, não havia, na Mostra Lucia Camargo, espetáculos da região Centro-Oeste.
“A gente celebra este marco, pois é algo que tentamos fazer desde a primeira vez em que nosso trio trabalhou junto. Ainda não tínhamos conseguido, pois não queríamos incluir trabalhos que não conversassem com o conceito da curadoria”, disse Danielle Sampaio.
Ela conta que a a atual curadoria do Festival de Curitiba é “daquelas escolhe viajar e se movimentar”. “Dessa vez, conseguimos pensar a nacionalização com critério e equilíbrio, para que o conjunto da mostra faça sentido a quem observar o desenho completo. Com isso, conseguimos realizar uma mostra, de fato, diversa”, afirmou. Para a curadora, a diversidade é um princípio não apenas na programação, mas também um “compromisso ético e cidadão” do festival, que vai além da retórica.
Espetáculos de cinco regiões
Em 2025, entre os 24 espetáculos – no fundo são 26 se contatos o espetáculo de abertura Os Mambembes e espetáculo de dança Encantado último a ser convidado para a Mostra Lucia Camargo – a maioria vem da região Sudeste, o principal polo de produção teatral do país, dividido entre Rio de Janeiro e São Paulo. Sete produções são do Rio e três, paulistas (veja a lista abaixo).
Da região Norte vem a peça “Sebastião”, do grupo Ateliê 23, de Manaus, que estreou no final do ano passado.
Do Nordeste, há dois espetáculos, ambos do Ceará. Um deles é “Monga”, cuja direção deu a Jéssica Teixeira o Prêmio Shell de Melhor Direção e foi criado em Fortaleza. O outro é “Laborioso Contato: Um Palhaço Anuncia o Fim do Mundo”, da Cia. Motim de Teatro, sediada na cidade de Quixeré, no interior do estado.
A região Centro-Oeste está representada pela peça “Júpiter e a Gaivota – É impossível viver sem o teatro”, uma releitura feminina, feminista, contemporânea e brasileira da clássica obra “A Gaivota”, do russo Anton Tchékhov, encenada pela Cia. Setor de Áreas Isoladas, de Brasília.
Por fim, da região Sul, há quatro obras de companhias sediadas em Curitiba. Duas delas são baseadas na obra de escritores importantes nascidos na cidade. “Daqui Ninguém Sai“, do Teatro de Comédia do Paraná, com direção de Nena Inoue e dramaturgia de Henrique Fontes, é baseada em contos e cartas de Dalton Trevisan (1925–2024); já “Cabaré Haikai” se inspira na obra do poeta, compositor, escritor e ensaísta Paulo Leminski (1944–1989), com direção de Rodrigo Fornos e dramaturgia dele, de Eduardo Ramos e Estrela Leminski.
Além delas, há “A Nebulosa de Baco“, da companhia Stavis-Damaceno, que estreou no Rio de Janeiro no ano passado e desde então circula pelo circuito do Centro Cultural Banco do Brasil — já passou pelo Rio, Belo Horizonte e Distrito Federal. E “Ao Vivo (de dentro da cabeça de alguém)”, da Companhia Brasileira de Teatro, do diretor Marcio Abreu, criada em Curitiba, mas que há alguns anos tem centralizado seu trabalho no Rio de Janeiro.
De Florianópolis, vem a peça Homens Pink, dirigida por Renato Turnes e do Rio Grande do Sul, o espetáculo de dança urbana Trivial, Um Espetáculo de B-Boys.
🌎 Origem dos espetáculos da Mostra Lucia Camargo
33ª edição do Festival de Curitiba – 2025
🟩 Região Norte
• Sebastião – Manaus (AM)
🟨 Região Centro-Oeste
• Júpiter e a Gaivota – É impossível viver sem o teatro – Distrito Federal (DF)
🟥 Região Nordeste
• Laborioso Contato: Um Palhaço Anuncia o Fim do Mundo – Quixeré (CE)
• Monga – Fortaleza (CE)
🟦 Região Sul
• Ao Vivo (de dentro da cabeça de alguém) – Curitiba (PR)
• Cabaré Haikai – Curitiba (PR)
• Daqui Ninguém Sai – Curitiba (PR)
• Nebulosa de Baco – Curitiba (PR)
• Homens Pink – Florianópolis (SC)
• Trivial, Um Espetáculo de B-Boys – Porto Alegre (RS)
🟪 Região Sudeste
• O Avesso do Avesso – São Paulo (SP)
• Bom Dia, Eternidade – São Paulo (SP)
• O Fim É uma Outra Coisa – São Paulo (SP)
• Alaska – Rio de Janeiro (RJ)
• Brilho Eterno – Rio de Janeiro (RJ)
• In on It – Rio de Janeiro (RJ)
• Língua – Rio de Janeiro (RJ)
• O Céu da Língua – Rio de Janeiro (RJ)
• Prima Facie – Rio de Janeiro (RJ)
Conexão Rio da Prata
Quatro peças — três argentinas e uma uruguaia — traçam um panorama do teatro produzido à beira do Rio da Prata na Mostra Lucia Camargo. Entre as produções argentinas, destaca-se “A Velocidade da Luz”, peça site-specific de Marco Canale, uma das grandes atrações desta edição do Festival.
Também se destaca “Gaviota”, uma adaptação contemporânea da obra de Anton Tchékhov, focada em alguns personagens, com dramaturgia e cenografia que remetem ao minimalismo. O público se senta ao redor de uma mesa, em torno da qual estão as cinco atrizes da peça, nesta ousada releitura bonaerense de “A Gaivota”, dirigida pelo multipremiado diretor e professor Guillermo Cacace.
Ainda de Buenos Aires vem o espetáculo “No Estoy Solo”, que mistura dança contemporânea e performance. Criada e interpretada por Iván Haidar, com direção de Sol Santacá, a peça-ritual aborda a fronteira entre companhia e solidão, entre presença e ausência.
Banda Oriental
Da banda oriental do Rio da Prata vem o espetáculo “El Desmontaje”, um monólogo no qual a autora Jimena Márquez conduz, no palco, uma experiência teatral híbrida entre documentário e espetáculo.
Quase como uma falsa conferência, Jimena — uma das grandes letristas das murgas do Carnaval uruguaio — interage com a plateia com humor, enquanto fala sobre o ofício teatral a partir de suas experiências reais como uma das dramaturgas mais originais da cena sul-americana.
🌍 Eixo Cone Sul (Apêndice Internacional)
• A Velocidade da Luz – Argentina
• Gaviota – Argentina
• No Estoy Solo – Argentina
• El Desmontaje – Uruguai